Apóstolos – Antes e Hoje


Um dos grandes temas que causam confusão, debate e discórdia no meio cristão protestante na atualidade é, certamente, o tema dos apostulado. No meio evangélico, cresce hoje o número de pessoas que se dizem apóstolo e, ainda, apóstola, e acabam por trazer problemas ao nosso meio com suas palavras, ações a atitudes. Essa questão é complexa para ser tratada em apenas um artigo (existem até livros escritos exclusivamente sobre esse assunto), mas pretendo dar uma ideia geral sobre o que é um apóstolo, qual o seu papel no início da Igreja e uma posição a respeito dos apóstolos modernos.

“E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores.” – Efésios 4.11

A palavra “apóstolo” vem originariamente, de acordo com o Dicionário Bíblico Wycliffe, do termo grego apostollein, que significa “enviar”, “remeter”, ou seja, “aquele que é enviado” ou “aquele que é comissionado por Cristo”. Essa palavra é mais conhecida por se referir aos doze companheiros de Jesus (os Apóstolos), bem como ao apóstolo Paulo. Entretanto, ela também era usada para qualquer mensageiro nomeado para algum propósito (Fp. 2.25 ou 2 Co. 8.23). Ainda assim, para o objetivo deste artigo, referimo-nos à palavra apóstolo no sentido daquilo que conhecemos como o colégio apostólico, que foi o grupo dos doze primeiros discípulos de Jesus, que assim foram nomeados. Para ser chamado por esse nome, haviam, de acordo com as Escrituras, três requisitos obrigatórios a serem respeitados. São eles: ter visto a Cristo, ter aprendido diretamente com Cristo e ter sido chamado diretamente por Cristo (Mc. 3.13-19; Mt. 10.1-4; Lc. 6.12-16). Segundo esses pontos, não existe qualquer dificuldade no reconhecimento dos 12 mencionados em Marcos 3. 13 a 19, sendo que Judas seria substituído por Matias após a sua morte e seguindo o que havia sido registado nos salmos 69.25 e 109.8 e, também, segundo os mesmos requisitos que estavam no seu apostolado (Atos 1. 21-26).

“E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. 4 E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? 5 E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.” – Atos 9. 3-5

O “problema” com os apóstolos começa com o chamado apóstolo Paulo, pois este se deu em circunstâncias, lugar e tempo diferentes dos apóstolos restantes. Ao contrário de ser um discípulo de Cristo, Paulo era um perseguidor de Cristo. Em vez de ter sido chamado junto aos outros discípulos, foi chamado a caminho de Damasco. E, em vez de ter visto e caminhado com Cristo, ele foi escolhido depois da ressurreição e assunção de Cristo aos céus. Se o nome de Paulo se encontra entre os doze apresentados na visão de João (Ap. 21.14) ou não, é um ponto que foge ao propósito deste artigo. Mas podemos, seguramente, afirmar que ele era um apóstolo da mesma qualidade dos demais, ainda que ele mesmo se tratasse como “o menor dos apóstolos” (1ª Cr. 15.9). Podemos defender essa afirmação, visto que Paulo cumpre os três requisitos para o apostolado, ainda que em circunstâncias diferentes.


Em primeiro lugar, ele realmente viu a Cristo. Devemos realçar que existe uma diferença entre uma visão e uma aparição. Uma visão de Cristo ou alguma visão sobrenatural é pessoal, sem qualquer consequência àqueles ao nosso redor, sendo um exemplo disso a visão de João quando descrita em Apocalipse. Agora, a aparição de Cristo se dá de forma corpórea e, de alguma maneira, percetível àqueles que estão ao redor. Para que alguém fosse ou seja um apóstolo, exigia-se que tivesse visto a Cristo, antes da sua glorificação ou glorificado, como foi o caso de Paulo. Podemos constatar isso mediante os relatos da sua conversão no livro de Atos. Atos 9.7 nos narra que os companheiros de Paulo ouviram a voz de Cristo, ou seja, não era um pensamento de Paulo ou algo em sua mente ou espírito que lhe falava, ainda que eles relatem que não viram ninguém. No entanto, em Atos 22. 9, o apóstolo, ao narrar a sua conversão, dá-nos a informação de que os seus companheiros viram também uma luz (não discernindo uma pessoa, o que vai de acordo com Atos 9.7). E, ainda, em Atos 26. 14, ficamos cientes de que a aparição de Cristo fez todos caírem por terra. Juntando todos os três relatos, entendemos, então, que Paulo VIU a Cristo – o que ele ainda confirma de forma clara em 1ª Coríntios 15. 3-8.


O segundo requisito é cumprido diante do que acontece durante a vida do apóstolo. Afinal, não seria até vários anos depois do momento mencionado acima que Paulo começa a exercer o seu apostolado. Durante o período que antecede o seu ministério, ele passa muito tempo no anonimato, sendo que a maior parte dos teólogos acredita que, durante esse período, Paulo fora instruído por Cristo (de que forma a Bíblia não especifica), pois existem ao menos três passagens bíblicas que nos permitem seguir esse pensamento. A primeira, já referida acima, em Atos 26. 16, que diz, “mas levanta-te e firma-te sobre teus pés, porque por isto te apareci, para te constituir ministro e testemunha, tanto das coisas em que me viste como DAQUELAS PELAS QUAIS TE APARECEREI AINDA” (ARA). Este versículo nos demonstra de forma clara que Jesus ainda haveria de aparecer novamente a Paulo. E a segunda, é Gálatas 1. 11 e 12: “faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo” – o que nos leva a compreender que o próprio Jesus instruiu a Paulo, assim como a todos os outros apóstolos, o que também podemos concluir por intermédio da terceira passagem, em 1 Coríntios 11.23, que afirma, “porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão;”. Creio que essas passagens sejam suficientes para se comprovar que Paulo cumpriu também o segundo requisito para ser um apóstolo.


Por fim, o terceiro requisito – ser chamado diretamente por Jesus – pode ser facilmente comprovado pelas passagens acima referidas para comprovar os outros dois. Apenas para consulta, caso o leitor assim o deseje, algumas passagens que sustentam o chamado pessoal de Paulo por Jesus são: Gl. 1.15-16, Atos 9.5-15, Atos 22.8-16 e Atos 26.14-18.


“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra de esquina” – Efésios 2.20

Comprovado o apostolado de Paulo, bem com o dos outros 12, devemos agora entender qual o propósito do ministério dos Apóstolos. Ora o período após a assunção de

Cristo foi extremamente importante para o desenvolver da Igreja e também da história do nosso mundo e para que o Evangelho se tornasse o que é hoje, cerca de 2000 anos depois do registado no Novo Testamento, era essencial que fosse firmada uma base segura. Para isso os apóstolos foram levantados por Cristo, pois eles firmaram a base da Igreja Primitiva. Atos 2.42 nos relata que “perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações”. Vemos então que aquilo que eles aprenderam de Jesus e posteriormente ensinaram à Igreja se tornou a base para a forma como ela se iria desenvolver. Sabemos também que além dos ensinamentos de Jesus, os apóstolos receberam também uma autoridade superior aos demais, sendo usados por Deus de uma forma que se destacava de todos ou outros (Atos 5.15, Atos 19.12), forma essa que hoje é usada de maneira deturpada e que leva a vários comportamentos errados dentro de algumas igrejas e/ou ditas igrejas. Atos 14.3 nos demonstra que essa autoridade e derramamento do Espírito por parte dos apóstolos comprovava a palavra de Cristo e foi essencial para que o Evangelho se espalhasse, seja através de testemunhos, seja através das histórias que se propagavam naquele tempo. A forma como os apóstolos foi usada pelo Espírito Santo durante as suas vidas foi então muito importante para a propagação do Evangelho. Por fim mas não menos importante, os apóstolos foram essenciais para terminar a Revelação Escrita de Deus que nós possuímos hoje, ou seja, a Bíblia. Apenas o Antigo Testamento estava disponível na época dos apóstolos e foram eles, ou seus discípulos diretos que escreveram quase todo o Novo Testamento (salve-se aqui a dúvida da Carta ao Hebreus e também a Carta de Tiago, salvo algum lapso meu). Constatamos então que as mesmas palavras que os apóstolos dirigiram à Igreja Primitiva para que ela se fundamentasse são, muitas delas, as que o Espírito Santo inspirou para que o Canon Bíblico fosse então completo e encerrado. Tudo isso nos leva a Efésios 2.20, que nos demonstra a importância e a singularidade dos apóstolos.

“Por último, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo” – Atos 15.8

Por fim, após abordarmos o apostolado nos tempos bíblicos iremos agora analisar esse ministério nos dias atuais. Sendo direto e simples, e concordando com a posição das principais igrejas históricas como a Assembleia de Deus, a Igreja Presbiteriana e a Igreja Batista, não existem apóstolos hoje! Isto claro, de acordo com o termo que temos estudado neste artigo. O termo apóstolo significa, como já vimos, “enviado”. Por aí, então, qualquer que for enviado para pregar o Evangelho, pode ser chamado, no sentido da palavra, um apóstolo (um enviado). Mas claro que não são esses que hoje são chamados de apóstolos. De facto, os que mais se enquadram para o desígnio dessa palavra são hoje chamados de“missionários”. Mas hoje muitos se levantam dizendo serem apóstolos e apóstolas, sucessores dos apóstolos dos tempos bíblicos. Mas não existe algo como uma sucessão apostólica. Deixando de lado a ação dos Dons Espirituais, que ainda hoje acontecem (mas não com a mesma autoridade dos apóstolos), os outros dois aspetos já foram cumpridos, firmar as doutrinas cristãs e terminar o Canon Bíblico. O ministério apostólico, tal como o conhecemos com os 12 e Paulo, já findou o seu propósito e por isso não existe mais. O que acontece é que alguns buscam se aproveitar daquilo que a posição de apóstolo lhes confere. Seja porque afirmam não poderem ser contrariados, que a sua palavra é a revelação de Deus, que ao rejeitar as suas palavras rejeitamos a Deus, que as suas ações e invenções são ações diretas de Deus ou ainda pela fama e respeito que os incautos lhes proporcionam, parece que tem

crescido e muito o número de autointitulados apóstolos nos nossos dias. O grande problema é que de forma alguma eles (ou elas) cumprem os requisitos bíblicos para o apostolado, não se comportam como os verdadeiros apóstolos, não enfrentam as adversidades comuns dos apóstolos, não possuem a mesma autoridade que eles e os seus propósitos são muitas vezes diferentes daqueles que a Bíblia nos mostra que os apóstolos possuíam. O apostolado atual infelizmente está mais para um movimento que busca o interesse próprio e que faz um uso deturpado das Escrituras para fins obscuros. Até novas revelações que contrariam os ensinos bíblicos são trazidas até nós por esses ditos apóstolos, que acabam se incluindo num grupo nada desejável (Gl. 1.8).

“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasse outro evangelho além do que já vos pregamos, seja anátema. “– Gálatas 1.8

Cristo levantou apóstolos, seus discípulos e servos, com o propósito de firmar as bases da Igreja, expandir o Evangelho e terminar o Canon Sagrado. Esse propósito foi cumprido de acordo com o desígnio divino e o colégio apostólico terá um lugar reservado quando o grande dia da volta de Cristo chegar (Ap. 21.14). Quanto aos nossos dias, devemos reconhecer com humildade que continuamos a ser apenas servos diante de Deus, capacitados pelo Seu Espírito para cumprir os seus propósitos e não devemos deixar que orgulho, soberba ou qualquer outro desejo da carne nos faça esquecer isso. Não devemos almejar para nós cargos e/ou posições mas sim “combater o bom combate”, cumprindo a vontade do nosso Deus nas nossas vidas. Duvido que algum de nós, do desejo sincero do seu coração, desejasse cumprir com os encargos, lutas e responsabilidades dos apóstolos, então, devemos buscar do Espírito Santo, com humildade, zelo, responsabilidade e amor pela Igreja e por Deus, aquilo que é da sua vontade nós fazermos, honrando ao nosso Senhor e Salvador e glorificando o Seu nome através das nossas vidas.

João Paulo Marques